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quinta-feira, 20 de julho de 2017

OPERAÇÃO VALQUÍRIA - OS 73 ANOS DO LEVANTE ALEMÃO CONTRA HITLER

Há 73 anos, em 20 de julho de 1944, o Führer alemão Adolf Hitler sofria um atentado fracassado em uma sala de reuniões na Toca do Lobo, seu Quartel General na Prússia Oriental.



     Desde as sequências de derrotas alemãs em Stalingrado (fevereiro de 1943) e Kursk (julho de 1943), muitos generais da Wehrmacht passaram a ficar desacreditados na liderança de Hitler, além de já vislumbrarem a derrota alemã, ao passo do gigantesco e acelerado avanço soviético após os eventos supracitados. Esse descrédito fez com que grandes oficiais da Wehrmacht, liderados pelo nobre Coronel Claus Schenk Graf von Stauffenberg, idealizassem um Golpe de Estado, denominado Operação Valquíria. Essa operação tinha como plano assassinar o Führer, assim como prender e destituir de todo o poder político e militar dos líderes das SS e retirar o Partido Nazista do controle do país.
Claus von Stauffenberg e três dos seus cinco filhos
     O sucesso do plano dependeria totalmente de Stauffenberg , que levaria uma bomba em uma maleta, que explodiria Hitler e o Alto Comando da SS reunido no local. Essa parte deveria ser feita somente por ele, pois era um dos poucos que ainda tinham acesso ao paranóico Adolf Hitler na Toca do Lobo. Após a explosão, o também conspirador General Erich Fellgiebel, deveria ligar para Berlim para informar o resultado do atentado, cortando, posteriormente, as comunicações entre a Toca do Lobo e o resto do Reich. Com a morte de Hitler, os demais comandantes da Wehrmacht que participavam do motim, mas que estavam em Berlim, telegrafariam para informar ao exército de que estavam no controle. Posteriormente, Stauffenberg viajaria para Berlim, assumiria o controle e assinaria a rendição e o armistício alemão, pondo fim na Segunda Guerra, mas de uma maneira mais branda para os alemães.


Stauffenberg (esq.), Hitler (centro) e Wilhelm Keitel (dir.), em encontro
algum tempo antes do atentado
     Com os preparativos finalizados, o dia para o atentado fora escolhido: A conferência do Alto Comando alemão na tarde de 20 de julho de 1944. Stauffenberg chega a Toca do Lobo às 11 da manhã daquele dia. Porém, ao ser recebido pelo Marechal-de-Campo Wilhelm Keitel, é informado que a reunião seria adiantada, em decorrência da visita de Mussolini naquela semana. Keitel, um dos maiores puxa saco de Hitler, nada sabia acerca do atentado. Aproveitando da fama e da nobreza de Stauffenberg, Keitel pede para que ele vá melhorar os ânimos de Hitler. Com todos esses contratempos, não seria possível armar a bomba antes da reunião, ainda mais com o bajulador do Keitel nos seus calcanhares. Dando-lhe uma desculpa de que precisava trocar a camisa suada em decorrência do calor da viagem, Stauffenberg se livra de Keitel e se apressa para armar as bombas.
Pouco antes do meio dia, Stauffenberg e seu assistente Werner von Haeften vão para uma sala reservada de um dos bunkers do complexo, enquanto Hitler ainda se preparava para a reunião. Stauffenberg começa a armar a primeira bomba, um explosivo adesivo de fabricação inglesa, contendo 900 gramas de material explosivo cada. Para armá-las, uma cápsula de ácido é quebrada, o ácido derrete o invólucro de proteção de uma carga de bateria. Em aproximados 10 a 15 minutos, a bateria derretida solta uma fagulha que detona a bomba, que uma vez armada, não pode mais ser detida.
Eis que chega o tão esperado momento, o maior dos feitos de Stauffenberg está prestes a acontecer. Às 12:15 Hitler sai de seu bunker, rumo a reunião, acompanhado de seus fieis seguidores. Stauffenberg rompe com um alicate a cápsula de ácido de uma das bombas, mas quando vai armar a segunda bomba, seu assistente se distrai e um soldado raso o interrompe, avisando-lhe que a reunião vai começar. Dessa forma, a Operação Valquíria tem sua primeira falha consumada.
A sala de reuniões está lotada. 24 oficiais do Alto Escalão alemão estão presentes, com destaque para o Marechal-de-Campo Wilhelm Keitel; o General Alfred Jodl; o Tenente-General Hermann Fegelein, futuro cunhado de Hitler; o secretário de Hitler, Otto Günsche, dentre outros. Hitler entra na sala de reuniões às 12:30, quando se inicia a leitura do assustador relatório de combate no Front Oriental. Stauffenberg chega ao final deste relatório. A maleta é levada pelo soldado assistente, que aguardava do lado de fora. Stauffenberg pede para que este coloque a pasta próximo de Hitler, dando a desculpa de que precisa ficar próximo para ouvir melhor a fala do Führer, em decorrência de seus ferimentos de batalha. Após sua chegada ser anunciada. Stauffenberg cumprimenta a Hitler e os que ali estavam, ficando próximo do Führer após isso, aguardando para relatar a situação das tropas de reserva, comandadas por ele.  A reunião está demorando mais do que o planejado e caso Stauffenberg não consiga explanar seu relatório, ele será obrigado a ficar até a hora da explosão, morrendo com os demais. Mas para sua sorte, um dos conspiradores, o General Fritz Erich Fellgiebel também percebe a demora e pede para o assistente chamá-lo, alegando que um telefonema importante o aguarda na central.
Stauffenberg, Haeften e Fellgiebel, os conspiradores que estavam na Toca do Lobo para a realização do atentado, esperam do lado de fora da cabana, até que a bomba exploda. Em torno das 12:41, Hitler questiona acerca da reserva militar e os presentes dão pela ausência de Stauffenberg. No momento em que um soldado auxiliar é enviado à caça de Stauffenberg, o Coronel Heinz Brandt bate acidentalmente na pasta com a bomba, movendo-a para o outro lado da pesada mesa de carvalho da sala de reuniões. Fazia 15 minutos que a cápsula do ácido havia sido rompida. O General Heusinger estava no meio de sua explanação, quando Hitler se debruça na mesa para questionar um ponto do mapa que estava posto ali. Neste exato momento a bomba explode, estando a dois metros do Führer.
A explosão fora tão forte que Stauffenberg fica convencido de que ninguém havia sobrevivido. Aproveitando o alvoroço, pega um carro e ruma para o aeroporto localizado ao lado da Toca do Lobo, pegando um avião com destino a Berlim, para dar sequência ao plano. Na cabana da reunião nada saiu como o planejado. O Führer estava vivo. O Marechal Keitel se levanta e ajuda seu amado líder a se levantar. Dos vinte e quatro homens que ali estavam, onze ficaram gravemente feridos e quatro morreram nos dias seguintes. Hitler escapa com ferimentos relativamente leves, se comparados ao tamanho da explosão ali ocorrida. Ao ser levado para o seu Bunker particular, é imediatamente atendido pelo seu médico particular, o Dr. Theodor Morell. Ele verifica os batimentos do Führer, que estava extremamente baixo. Dentre os ferimentos ocasionados, Hitler ficara com o braço direito inchado e dolorido, seu paletó e sua calça estavam praticamente desintegrados. Além disso, mais de 100 farpas da mesa de carvalho são retiradas das pernas de Hitler. Ele também tem cortes na testa e seus tímpanos estouraram. Segundo historiadores, este atentado, dentre outros tantos, fora o que mais causou efeitos em Hitler. Depois deste evento, o líder da Alemanha Nazista nunca mais fora o mesmo, e somados aos tratamentos contestáveis de Morell, fizeram com que a saúde de Hitler se tornasse extremamente delicada e debilitada.
O atentado que deveria matar Hitler se voltara contra seus organizadores. Os que estavam desacreditados com o governo de Adolf Hitler passaram a crer que a providência divina estava ao lado do Führer, e que este iria levar a Alemanha para a vitória final. Após intensas investigações, Hitler recebe das mãos de Keitel o já esperado relatório. Fora um alemão que realizara o atentado.
Enquanto isso, Stauffenberg acaba de chegar a Berlim, ainda crendo no sucesso da Operação. Ele demora para chegar ao escritório do Alto Comando alemão. Ao se encontrar com um dos conspiradores, o General Friedrich Fromm, recebe a informação de que as comunicações com a Toca do Lobo estavam normais e que o Marechal-de-Campo Keitel havia informado o Comando em Berlim do atentado e que Adolf Hitler ainda estava vivo. Fromm quer cancelar o levante, enquanto ainda dava tempo de reverter à situação. Mas Stauffenberg viu a bomba ser detonada e se nega a acreditar na informação, chamando Keitel de mentiroso. Então, Stauffenberg adentra na sala de comunicações e dá ordens para que uma informação assinada por ele seja transmitida para os demais setores de comando do Reich:

“O Führer Adolf Hitler morreu, a Wehrmacht deverá tomar as rédeas a partir de agora.”

Essa informação acaba chegando aos ouvidos dos líderes aliados. Joseph Stalin e Winston Churchill. Começa-se uma grande movimentação política em decorrência do fato. Os conspiradores esperavam realizar um cessar fogo entre a Alemanha e os Aliados Ocidentais, unindo forças contra os soviéticos que estavam se aproximando do centro da Europa. Mas Churchill e Roosevelt estão dispostos a acabar com o nazismo e com a Alemanha Nazista, mesmo que tenham que lutar contra o próprio diabo.  Enquanto isso, Hitler acabava de receber a visita de Mussolini, onde, mesmo debilitado, mostra o local do atentado, com os ânimos revigorados pelo fato de ter sobrevivido quase ileso.
Adolf Hitler mostra o local do atentado para o Duce Benito Mussolini
     Já no final da tarde, Hitler se reúne com a Alta Cúpula do partido, falando alegremente acerca da reunião que tivera com Mussolini e os planos que os dois haviam feito para o futuro da guerra. Nesse momento, Heinrich Himmler chega esbaforido, entregando ao Führer o telegrama que Stauffenberg havia passado para os comandos e acidentalmente enviado para a Toca do Lobo. Após ler o telegrama, Hitler esboça um sorriso e ordena que os conspiradores sejam caçados e sentenciados a morte e suas respectivas famílias sejam enviadas aos Campos de Concentração.
Em Berlim, Stauffenberg tenta colocar a capital em ordens, mandando que as tropas de reserva se encaminhem para a casa de Joseph Goebbels, ministro da propaganda e braço direito de Hitler, para prendê-lo. Todavia, Goebbels já sabendo da situação, telefona para a Toca do Lobo e coloca o oficial que estava sob ordens dos conspiradores na linha com o próprio Hitler. O General Friedrich Fromm trai seus colegas, entregando todos os nomes envolvidos no motim e mandando prendê-los, na tentativa de se redimir com Hitler. O último atentado contra Hitler e a última esperança de um cessar fogo mais amigável acabaram de fracassar.
Eis que os conspiradores que estavam em Berlim são encaminhados para a execução. O general Olbricht é o primeiro a ser morto, Stauffenberg seria o próximo, mas seu assistente Haeften se joga a sua frente e é fuzilado em seu lugar. Stauffenberg, segundos antes de ser alvejado grita: “Vida Longa para a sagrada Alemanha!”  é morto. Os conspiradores mortos tiveram seus corpos enterrados em um cemitério em Berlim. Todavia, Himmler ordena que o corpo de Stauffenberg seja incinerado e suas cinzas jogadas no rio. O traidor Fromm, que entregara os conspiradores também fora executado, dois dias depois.
Os demais conspiradores foram levados a um Tribunal do Júri, composto por membros do partido nazista. Os familiares dos oficiais ligados ao golpe foram mandados para campos de concentração. Dentre os conspiradores originais, o nome do Marechal-de-Campo Erwin Rommel fora citado. Por não haverem mais provas e pelo fato de Rommel não ter participado diretamente do levante, Hitler ordena que o mesmo cometa suicídio, prometendo que sua família seria preservada e continuaria a receber o soldo do Marechal. Até os dias atuais, não é sabido se Rommel participara do golpe.


Os conspiradores. 01 - Coronel Albrecht Mertz von Quirnheim, 2 - Coronel Ludwig Beck,
3 - Primeiro Tenente Werner Karl von Haeften, 4 - General Friedrich Olbricht, 5 - Tenente-Coronel Karl Ernst Rahtgens, 6 - Tenente-General 
Hans Alexander von Voss, 7 - Carl-Hans Graf von Hardenberg, 8 - Major de Cavalaria Philipp von Boeselager, 9 - Ignorado, 10 - Carl Friedrich Goerdeler, 11 - General Henning von Tresckow, 12 - Coronel Claus Graf von Stauffenberg
     Se a Operação Valquíria tivesse dado certo, milhões de vidas seriam preservadas, soldados deixariam de lutar, civis deixariam de sofrer com este ultimo ano de guerra, além dos prisioneiros dos campos de concentração que foram antecipadamente encaminhados para a morte, na tentativa de finalizar o programa da Solução Final, nos últimos meses de guerra na Europa.
Atualmente, Claus Graf von Stauffenberg é tido como herói do povo alemão, pois, mesmo tendo fracassado em seu propósito de matar Hitler, tentara adiantar o término da guerra. 

Fonte:

BEEVOR, Antony. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL.Ed.1, Editora Record. São Paulo, 2015;
GRABER, Gerry. STAUFFENBERG, História Ilustrada Da 2ª Guerra Mundial - Líderes. Ed.1. Editora Renes, Rio de Janeiro. 1980;
FEST, Joachim.  PLOTTING HITLER'S DEATH: The German Resistance to Hitler, 1933–1945. Ed.1. Holt Paperbacks. 1996.

Publicado por Diego Saviatto

quarta-feira, 19 de julho de 2017

OS 92 ANOS DO MEIN KAMPF - A BÍBLIA DO NAZISMO

   Há 92 anos, em 18 de julho de 1925, Adolf Hitler lançava seu Magnum Opus, o livro Mein Kampf.

O livro Mein Kampf, em sua versão original
     Para falarmos do livro Mein Kampf, devemos antes observar o contexto histórico da época. Era 1920, dois anos após a derrota alemã na Primeira Grande Guerra. Hitler abandonara de vez a carreira militar, sendo dispensado do exército. Agora ele poderia trabalhar em tempo integral nos ideais do novo partido, o recém criado Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou simplesmente, Partido Nazista. O modelo antissemita e e ultranacionalista do partido era contribuído pelo espírito do Dolchstoßlegende (Teoria da Punhalada nas Costas), do qual muitos alemães, principalmente os de Munique, onde Hitler residia, espalhavam em plenos pulmões que a culpa da derrota alemã na Primeira Guerra, bem como toda a privação decorrente a ela, era culpa dos Marxistas e Comunistas (posteriormente vinculados a figura e imagem dos banqueiros e políticos judeus), que traíram e apunhalaram os alemães puros, ao usarem de sua malícia, influência e liderança política para forçar o armistício do país.


Cartaz alemão da época do pós-guerra, ilustrando a Dolchstoßlegende
     Um dos objetivos iniciais do recém fundado Partido Nazista era a total aniquilação do comunismo/marxismo da Alemanha, assim como destruir a base política da Nova República, baseada em Weimar, que alegavam estar corrompida pelo Marxismo e pelo Bolchevismo. Os demorados e intensos discursos de Hitler passavam a atrair cada vez mais seguidores a cervejaria de Munique, incluindo o futuro Alto Escalão do governo Nazista, como Hermann Goering, Rudolf Hess e Ernest Röhm. Este último recebera das mãos de Hitler, alguns meses mais tarde, o papel de recrutar e organizar a principal tropa miliciana armada do partido, a Sturmabteilung, ou SA. Esse agrupamento seria responsável por toda a coação e ameaças contra aqueles que se opunham aos ideais nazistas, garantindo assim o crescimento contínuo e ininterrupto do partido. No ano de 1923, já com um efetivo razoável de seguidores, Hitler e seu mais novo aliado, o veterano de guerra, general Erich Ludendorff, juntamente com outros homens de grande influência no Partido Nazista, como Alfred Rosenberg e Friedrich Weber, botaram em prática aquele que fora um dos planos mais discutidos nas reuniões do partido: o Golpe de Estado contra o governo da Baviera, conhecido como Putsch da Cervejaria. Ao tentar o apoio de políticos influentes, os nazistas esbarraram nos egos e ânimos inflados de Gustav Ritter von Kahr, líder político da Baviera, do general do exército Otto von Lossow e do chefe da polícia local Hans Ritter von Seisser. Estes bateram de frente com Hitler e seus seguidores, pois queriam dar eles próprios um Golpe de Estado, instituindo um governo militar sem a influencia dos nazistas. Como resultado desse levante, cerca de dezesseis membros do Partido Nacional-Socialista, assim como quatro policiais morreram, sem contar os inúmeros feridos.


Alfred Rosenberg (esq.), Adolf Hitler (centro) e o Dr. Friedrich Weber, do
Freikorps Oberland, durante o Putsch da Cervejaria de Munique
     Após tentar fugir, Adolf Hitler foi preso pelas autoridades alemãs, em 11 de novembro de 1923, acusado de traição contra o Estado. Durante o julgamento, Hitler fez proveito dos holofotes colocados sobre ele, transformando esta situação em mais um de seus demorados discursos. Todavia, a justiça alemã foi inflexível, sentenciando Hitler a 05 anos de prisão, em Landsberg, em 01 de abril de 1924. Durante esse período, Hitler foi muito bem tratado, recebendo inúmeras visitas. Ele foi liberado muito antes de cumprir a totalidade de sua pena, ficando preso pouco mais de 01 ano, e saindo após receber o perdão da Suprema Corte e do Governo da Baviera. Fora nesse período encarcerado que Hitler escrevera o Mein Kampf, aproveitando da escrita para depositar toda sua raiva e desgosto pela situação em que se encontrava, transfigurando-a num único inimigo: Os Judeus. Nesta obra, detalhou sua trajetória de vida, além de inspirações e planos políticos para a Nova Alemanha, sob a égide da raça ariana, publicando-o em dois volumes (1925 e 26). Vale ressaltar que não fora Hitler que literalmente escrevera o livro, pois este apenas ditava para Emil Maurice (então motorista de Hitler e futuramente líder da SA), e posteriormente para Rudolf Hess, o braço direito de Hitler.
  Da publicação até as vésperas de sua chegada ao poder, Hitler tinha vendido pouco menos de 300 mil cópias. Todavia, após assumir a chancelaria, mais de um milhão de exemplares seriam comprados em toda a Europa em menos de um ano. Vale ressaltar que, após a chegada de Hitler ao poder total da Alemanha, como Führer supremo, o livro passou a ser uma obra obrigatória nas residências dos alemães. Eram distribuídos nas escolas da Hitlerjugend e da Bund Deutscher Mädel (Liga das Moças Alemãs), além de obras traduzidas serem exportadas para os países aliados do Eixo. Inclusive, algumas centenas desses exemplares chegaram ao Brasil até o corte de ligações com o Eixo, no começo de 1942.


Livro Mein Kampf, da Editora Centauro na Livraria Martins Fontes,
na Avenida Paulista, em SP, antes da proibição
       Os direitos do livro, que pertenciam a Adolf Hitler, foram entregues ao Estado da Baviera, após a sua morte. Os líderes da Baviera recusaram-se a republicar e permitir republicações do livro. Isso fez com que os únicos exemplares a existirem fossem as obras da época, que estavam nas mãos de colecionadores e admiradores do nazismo. Porém tais direitos caíram em domínio público no dia 31 de Dezembro de 2015, podendo ser editado e traduzido por quaisquer editoras. Todavia, sua reedição ainda é motivo de polêmicas pelo mundo todo, gerando um forte movimento contrário a sua publicação para as massas. No Brasil, a Editora Centauro publicou uma versão integral, não-comentada e com o texto traduzido diretamente do livro da época, com direito a uma versão digital. Mas após uma ação judicial, primeiramente no TJ do Rio de Janeiro, proibiu a venda do exemplar em versão integral no estado, onde, posteriormente, sentenças semelhantes se espalharam por inúmeros estados do Brasil, fazendo com que os exemplares fossem retirados das lojas. Atualmente, a Editora Centauro vende o Mein Kampf apenas em seu site.

Fontes:

HITLER, Adolf. Mein Kampf. 1. ed - São Paulo: Editora Centauro. 2016;
KERSHAW, Ian. Hitler. 1. ed - São Paulo: Companhia das Letras. 2010.

Postado por Diego Saviatto



segunda-feira, 17 de julho de 2017

O INÍCIO DO FIM - A BATALHA DE STALINGRADO

Crianças do Khorovod ou "Fonte Barmaley", monumento na principal praça de Stalingrado, sobrevive ao intenso bombardeio alemão, em 1942

Há 75 anos o Exército Alemão dava início à invasão da cidade de Stalingrado, uma cidade fabril nas margens do Rio Volga.  A escassez de combustível havia desempenhado papel significativo na derrocada em Moscou no inverno anterior. Em seu típico exagero, Hitler advertiu seus generais de que, se os campos de petróleo do Cáucaso não fossem conquistados em três meses, a Alemanha perderia a guerra. Hitler então dividiu o Grupo de Exércitos do Sul em dois novos setores. O Setor Norte, chamado de Grupo de Exércitos A, e o Setor Sul, denominado de Grupo de Exércitos B. Na divisão de funções, o Grupo de Exércitos A deveria liquidar as forças inimigas em torno de Rostov-na-Donu e seguir em avanço pelo Cáucaso, conquistando a costa leste do mar Negro, invadindo a Chechênia e Baku, no Cáspio, duas regiões ricas em petróleo. O Grupo de Exércitos B, por seu turno, deveria tomar a cidade de Stalingrado e investir sobre o Cáspio, circundando a região de Astrakhan, na parte inferior do Volga. Esse movimento de pinça tinha a intenção de bloquear o avanço soviético naquela região, estabelecendo bases fortes para a extração do petróleo, vital para a guerra total da Alemanha de Hitler.

Soldados alemães em trincheiras nas proximidades da fábrica de
tratores de Stalingrado, em 1942
O avanço do Grupo de Exércitos B sobre Stalingrado tinha como intuito tomar não só um importante centro industrial e ponto-chave de distribuição de suprimentos e combustível do Cáucaso, mas também uma cidade cujo nome concedia-lhe um significado importantíssimo para o Governo Soviético. No decorrer dessa batalha, a cidade de Stalingrado ganhara outro significado, se tornando um símbolo da resistência vermelha e o fim da invencibilidade alemã na Segunda Guerra. 
Após incontáveis incursões e ataques aéreos, que infringiram gigantescos danos a estrutura física da cidade, além de vitimar mais de 40 mil civis, que haviam sido proibidos de fugir da cidade, pois Stalin acreditava que a presença destes aumentaria o moral e a responsabilidade dos soldados vermelhos na sua defesa.
Mesmo com a garantia que o comandante do Grupo de Exércitos B, o General von Paulus, dera a Hitler de que a cidade estaria sob total controle alemão em poucas semanas de combate, os soldados alemães demoraram até o fim de agosto para ter o controle de Stalingrado. Em 30 de setembro de 1942, os alemães já possuíam controle de dois terços da cidade, vindo a combater os constantes ataques em meio às ruínas da cidade. Todavia, isso não significava a vitória, pois a cada combate casa a casa, as baixas alemãs eram cada vez maiores. Generais seniores, como Paulus e seu superior, Weichs, e o próprio Karl Zeitzler, grande puxa saco do Führer, aconselharam Hitler a ordenar uma retirada, temendo as perdas em que incorreriam em um longo período de combate. Esses conselhos foram mais uma vez ignorados com desdém pelo Führer, alegando que a cidade deveria ser totalmente tomada até outubro. 
    A cidade significava muito para os dois lados do conflito. Stalin estava disposto a injetar quaisquer recursos disponíveis para defender o que sobrara da cidade que levava seu nome. Para tal, dera carta branca para que o General Vasili Chuikov  fizesse o possível para defender Stalingrado.

Soldados soviéticos atravessam a nado o gelado Rio Volga, nos
arredores de Stalingrado, em 1942
A aviação e a artilharia alemãs continuaram a atacar a zona de ocupação soviética de Stalingrado, mas as ruínas bombardeadas da cidade propiciaram condições ideais de defesa às tropas soviéticas. Vivendo em porões e posicionando atiradores de elite nos andares superiores de apartamentos parcialmente demolidos, os soviéticos conseguiam emboscar as tropas de assalto alemãs, romper seus ataques maciços e canalizar o avanço inimigo para avenidas onde poderiam ser liquidados por armas antitanque e armamento pesado escondidos, além de caminhos repletos de minas terrestres. 
     O combate passara em muito para o corpo a corpo, com o uso de baionetas e facas. O objetivo agora era desgastar ao máximo o inimigo. O combate constante e ininterrupto cobrou seu preço, e muitos soldados adoeceram. Os alemães lutavam ferozmente pela defesa de suas posições, batalhando intensamente na linha de frente. Todavia, com o desgaste e o incontável número de soldados perdidos todos os dias, a retaguarda das forças de Paulus deixou a abertura que o Exército Soviético tanto necessitava. Jukov e Vasilevskii persuadiram Stalin a ceder uma gigantesca quantidade de tropas novas, inteiramente equipadas com tanques e artilharia, para tentar montar uma enorme operação.

As novas divisões blindadas e mecanizadas soviéticas
se preparam para reforçar o efetivo na Batalha de Stalingrado
Mais de um milhão de homens estavam reunidos de prontidão para um assalto maciço às linhas de Paulus no início de novembro de 1942.  E no dia 19 daquele mês, o novo efetivo soviético estava pronto. Com a forte neblina do amanhecer, as forças soviéticas atacaram em um ponto fraco das linhas alemãs, defendidas por soldados romenos desavisados e pouco equipados, quase 160 quilômetros a oeste da cidade. Nesse ataque, 3,5 mil armas e morteiros pesados abriram fogo, preparando o caminho para os tanques e a infantaria. Depois de oferecer um combate inicial, os romenos começaram a fugir em enorme confusão. O General Paulus, que havia posicionado seus tanques numa posição pouco efetiva, reagiu devagar demais e, quando enfim mandou tanques para tentar segurar as linhas romenas, era tarde demais. A massa colossal de blindados T-34 entravam sem muito esforço, como uma faca quente na manteiga que era a linha defensiva alemã.

General von Paulus, acompanhado de Arthur Schimidt e o Wilhelm Adam
em um abrigo subterrâneo de Stalingrado, em dezembro de 1942
As tropas de Paulus contavam com 20 divisões, seis delas motorizadas, e quase 250 mil homens no total. O primeiro pensamento de Paulus foi tentar irromper pelo oeste, levando esse montante para um possível contra-ataque. Todavia, Paulus hesitou mais uma vez.
      Mas as esperanças ainda estavam ao lado dos alemães. O Marechal de Campo von Manstein enviou uma mensagem que aqueceu os corações dos soldados: “Aguentem firmes, estamos indo arrancar vocês daí”. 
As forças de von Manstein, compostas de duas divisões de infantaria e três divisões panzer, avançaram por sobre as tropas soviéticas em 12 de dezembro de 1942. Todavia, mal haviam chegado ao bolsão de Stalingrado, os tanques de apoio estavam imobilizados nas cercanias da cidade. Nove dias depois, estavam praticamente cercados, e Manstein foi forçado a permitir que Hoth, o comandante de suas tropas na região, recuasse. A operação de socorro havia fracassado e as esperanças estavam praticamente perdidas. O frio era intenso, a fome era constante e com o passar dos dias, os soldados alemães estavam cada vez mais próximos da rendição ou do suicídio. Com o passar das festas de fim de ano, os soldados alemães se alimentavam tão somente da carne dos seus próprios cavalos de guerra, os piolhos se proliferaram e a doença estava tão próxima quanto os ataques soviéticos. Em 28 de janeiro de 1943, Hitler emitira a ordem para que os doentes e feridos fossem deixados para trás, largados à própria sorte.
Desde meados de janeiro, aviões e carros com alto-falantes anunciavam os Termos de Capitulação. A carta fora assinada pelo Coronel-General de Artilharia Voronov e o Comandante-em-Chefe do Fronte do Don, Roskossovski. O Alto-Comando alemão disse para o General Paulus: 

“Quanto mais você segurar os soviéticos ai você estará ajudando para que eles não venham reforçar outro front.” 

      E assim o fizeram. O 6º Exército já não tinha apoio aéreo, estavam morrendo de fome e ficando sem equipamentos para combater os soviéticos. Impressionados com o grande número de seus soldados presos, os alemães começaram a reforçar o cerco. Dando continuidade a uma batalha sangrenta, os alemães começaram a instalar arames nas janelas para se proteger de granadas, numa tentativa de prolongar a batalha. Os soviéticos então fizeram outra proposta de rendição à Paulus: Se eles se rendessem os soldados receberiam tratamentos humanos, seriam medicados, alimentados e repatriados em qualquer país que eles quisessem. 
      Porém, seguindo as ordens de Adolf Hitler, Paulus não deu uma resposta para os soviéticos. Paulus pediu permissão para se render mais algumas vezes, mas a resposta sempre era a mesma. O 6º Exercito se rendera somente no dia 31 de janeiro de 1943. Mas isso não significou o fim da batalha. Os soviéticos só foram capazes de eliminar os insurgentes alemães em Stalingrado em março de 1943. Muitos grupos se escondiam e empreendiam pequenos ataques de resistência contra os soviéticos. Muitos se recusavam a se render e então eram aniquilados em seguida. 


O General von Paulus, juntamente com seus assistentes, oficializam
a rendição alemã em Stalingrado, perante os soviéticos,
em fevereiro de 1943


  Quanto ao número de baixas, a quantidade de soldados mortos nessa batalha fora gigantesca, os soviéticos perderam cerca de 400 mil soldados e mais 600 mil dentre feridos e doentes, tendo os alemães perdido cerda de 700 mil soldados, incluindo a rendição do que restara do 6º Exército do Marechal-de-Campo Friedrich Paulus, quebrando a tradição de que um Marechal-de-Campo jamais rendera-se ao inimigo e também destruindo o mito da invencibilidade Alemã.

Soldado alemão, evidentemente fatigado pela batalha, se rende ao Exército Vermelho, em fevereiro de 1943

Fonte: 

EVANS, Richard J. O TERCEIRO REICH EM GUERRA. Ed.1. - São Paulo : Planeta, 2012.
BEEVOR, Antony. STALINGRADO, O cerco fatal - 1942-1943. Ed.1. - Rio de Janeiro: Record, 2002.

Postado por Diego Saviatto